Adaptações nas atividades de vida diária para melhorar a participação de pessoas com baixa visão

Ashley Denny
Educação

Imagine a cena: acordar de manhã, sair da cama, circular pelo quarto, pelos corredores e pelo banheiro, fazer sua rotina de higiene pessoal e se vestir, tomar café da manhã e sair para o trabalho. Parece fácil, certo? Para quem tem baixa visão, essas tarefas simples podem parecer quase impossíveis.

A baixa visão é um déficit visual que dificulta a realização das atividades diárias (National Eye Institute, 2024). Pessoas com baixa visão enfrentam obstáculos diários que podem prejudicar sua participação nas atividades de vida diária (AVD), como vestir-se, usar o banheiro, tomar banho, cuidar da higiene pessoal e alimentar-se. Nosso trabalho como terapeutas ocupacionais (TO) é adaptar, modificar e transformar o ambiente para proporcionar o máximo de independência nessas tarefas.

A baixa visão tem um impacto substancial na participação nas AVD, aumentando sintomas de depressão e ansiedade (Kempen et al., 2012). Já vi de perto como a baixa visão afeta a interação das pessoas com os outros e com o ambiente. Por isso, criei este post. Nele, compartilho ideias de adaptação para as áreas de AVD que funcionaram bem com meus pacientes com baixa visão.

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Alimentação

Agora, pense em uma mesa posta típica: jogo americano, prato, talheres e um copo. Mas e se todos esses itens fossem brancos? E se a comida no prato também fosse branca ou de cor clara? Podemos começar observando o que é possível mudar para criar mais contraste entre esses itens na mesa. Como não dá para mudar a cor dos alimentos, podemos oferecer ao paciente um prato de cor contrastante, como pratos vermelhos ou azuis para alimentos brancos ou amarelos. Pratos com bordas altas se mostraram confiáveis com pacientes com baixa visão, reduzindo derramamentos e sujeira. Dependendo do paciente, talheres adaptados podem ser a melhor opção para garantir o uso adequado e aumentar o contraste de cor em relação ao jogo americano ou à mesa. Talheres com cabo engrossado podem criar contraste com o fundo claro, já que costumam ter cabo cinza ou preto. Se a pessoa não gostar de usar talheres com cabo engrossado, percebi que adaptações como talheres coloridos podem oferecer um contraste melhor.

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Vestuário

Percebi que vestir-se pode ser a AVD mais difícil de adaptar para alguém com baixa visão. Embora esses pacientes possam ter dificuldade com a tarefa como um todo (circular pelo quarto, pegar as roupas, tirar a roupa anterior e vestir a nova), encontrei formas de adaptar só a etapa de vestir. Com esses pacientes, tive sucesso ao ajudar na orientação da roupa colocando um tecido colorido na parte de trás da peça, indicando a posição antes de vestir. A cor contrastante nas costas da roupa permite que o paciente oriente e manipule a peça antes de vesti-la. Embora eu tenha encontrado essa solução, acredito que ainda são necessárias mais pesquisas e intervenções sobre o vestuário na baixa visão para apoiar melhor esses pacientes na tarefa.

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Uso do banheiro

Usar o banheiro pode ser um desafio para pessoas idosas, e a segurança é uma grande prioridade para mim como TO. Com a baixa visão, essa tarefa pode parecer quase impossível. Em um banheiro comum, o vaso sanitário fica perto de uma parede. Em uma residência assistida, onde vivem meus pacientes, é comum ver parede branca, vaso branco e piso de cor clara. É o pesadelo da baixa visão! Esse é um ótimo lugar para instalar uma barra de apoio horizontal ou vertical, melhorando a orientação em relação ao vaso. Dependendo da cor da parede e da barra, é possível aplicar fita, revestimento ou tinta de cor viva na barra de apoio para aumentar o contraste com a parede. Com pessoas idosas, pode ser necessário usar adaptações como assentos sanitários elevados. Ao escolher um assento elevado para um paciente com baixa visão, o ideal é optar por um modelo que contraste com o vaso. Por exemplo, se o vaso for branco, um assento elevado cinza-escuro ou azul é a melhor escolha para facilitar a orientação ao sentar. Um assento elevado com apoios laterais também é ideal para oferecer um estímulo tátil adicional, permitindo que o paciente sinta a posição antes de se sentar.

Se o paciente não aceitar o assento elevado, tive bons resultados colocando uma faixa de fita colorida na lateral da tampa do vaso, para indicar as dimensões e a posição do vaso. Colocar um pequeno pedaço de fita ou adesivo fluorescente sobre a descarga ou perto dela também pode ajudar a pessoa a concluir a tarefa, localizando a descarga. Com essa adaptação simples e de baixa tecnologia, é importante prestar atenção à higiene, à rotina de limpeza e à troca da fita.

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Higiene pessoal

Ah, os itens da pia. Não sei como você imagina a bancada de uma pia de banheiro típica, mas, para alguém com baixa visão, quanto mais minimalista, melhor. Tive uma paciente que fazia sua rotina de higiene em pé diante da pia, mas errava ao alcançar os itens da bancada e pegava os frascos errados. Para esses itens, tive sucesso com adaptações de baixa tecnologia. Coloquei fita fluorescente na frente do frasco de sabonete, escrevendo “SABONETE” em letras grandes, maiúsculas e com tinta preta. Essa paciente gostava de usar um copo para escovar os dentes. Também o identifiquei, escrevendo “COPO” em letras grandes e pretas sobre uma faixa de fita de cor viva. Como essa paciente também tinha diagnóstico de demência, coloquei uma faixa de fita azul na torneira de água fria e uma vermelha na de água quente. Com essas adaptações simples, trocávamos a fita ou usávamos lenços higienizantes com frequência para reduzir a proliferação de bactérias.

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Banho

Quem dera banheiros bonitos também fossem seguros e funcionais. Quando penso em um chuveiro de banheiro comum, penso em uma banheira com chuveiro toda branca. Uma pessoa idosa pode considerar essa configuração uma das tarefas mais desafiadoras do dia. Para ajudar alguém nessa situação a lidar melhor com as dificuldades do banho, podemos incluir uma cadeira de banho ou um banco de transferência para banheira, reduzindo o risco de quedas no ambiente molhado. Ao sugerir uma cadeira de banho, o ideal é indicar um modelo cinza-escuro ou azul com apoio para os braços, garantindo mais contraste com o fundo branco. Para uma pessoa independente nas transferências, com bom equilíbrio e que não aceita a cadeira de banho, podemos aplicar faixas antiderrapantes de cor contrastante para melhorar a percepção figura-fundo e ajudá-la a perceber as mudanças de piso entre a banheira e o banheiro. Se o paciente tiver um box com degrau, colocar uma faixa vermelha na borda pode ajudar a indicar a mudança de altura. Também é possível colocar etiquetas grandes na parte de fora dos frascos de itens de banho, como xampu e condicionador.

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Mobilidade funcional

Há muitas adaptações possíveis para a mobilidade funcional, que renderiam um post inteiro (quem sabe um spoiler). Falando por experiência própria, vou contar o que modifiquei com meus próprios pacientes.

Tive um paciente que morava em um apartamento de residência assistida. O espaço era simples: copa, banheiro e um ambiente amplo para a cama, uma poltrona e um rack de TV. Esse paciente esbarrava nas paredes, virava cedo demais, não conseguia passar direito pelas portas por ficar muito perto das paredes e não conseguia distinguir uma parede branca de uma porta branca. Modifiquei o ambiente colocando fita azul do chão ao teto em cada canto, batente, borda de porta e perto das maçanetas. Isso ajudou o paciente a perceber que estava perto do fim de uma parede ou de uma porta, para conseguir circular melhor.

Embora essas sejam adaptações bem-sucedidas, em sua maioria de baixa tecnologia, que apliquei pessoalmente com meus pacientes, há muitas formas de tornar um ambiente mais acessível para pessoas com baixa visão com facilidade, sempre centradas no paciente e na configuração específica do ambiente.  Precisamos começar identificando a barreira que o paciente enfrenta para apoiá-lo plenamente na adaptação e no tratamento (Berger et al., 2013). Ao propor adaptações, sempre me certifico de obter o consentimento do paciente (ou do seu representante legal) antes de fazer mudanças no ambiente, já que o paciente pode estar acostumado à configuração atual, e reaprender o ambiente pode ser ainda mais trabalhoso. Pessoas que recebem serviços de baixa visão apresentam alguma melhora nas atividades diárias (Lamoureux et al., 2007). Acredito que ainda há muita pesquisa a ser feita sobre baixa visão e AVD, além de adaptações a serem testadas na prática clínica para garantir ganhos de independência.

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Sobre a autora

Ashley Denny, OTD, OTR/L, é terapeuta ocupacional especializada em geriatria na FOX Rehabilitation. Formou-se na Chatham University, onde obteve o doutorado em Terapia Ocupacional em 2023. Possui a certificação First Response Low Vision da Pennsylvania Occupational Therapy Association (POTA) e a microcredencial em Baixa Visão da American Occupational Therapy Association (AOTA). Também atua como desenvolvedora de conteúdo para as plataformas digitais da FOX, criando materiais para profissionais de todos os Estados Unidos sobre temas como adaptações para baixa visão e demência, artrite, reabilitação pós-AVC e segurança domiciliar para pessoas idosas.

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Referências

Berger, S., McAteer, J., Schreier, K., & Kaldenberg, J. (2013).  Occupational therapy interventions to improve leisure and social participation for older adults with low vision: A systematic review. The American Journal of Occupational Therapy, 67(3), 303-311. https://doi.org/10.5014/ajot.2013.005447

Kempen, G. I., Ballemans, J., Ranchor, A. V., van Rens, G. H., & Zijlstra, G. A. (2011). The impact of low vision on activities of daily living, symptoms of depression, feelings of anxiety and social support in community-living older adults seeking vision rehabilitation services. Quality of life research, 21(8), 1405–1411. https://doi.org/10.1007/s11136-011-0061-y

Lamoureux, E. L., Pallant, J. F., Pesudovs, K., Rees, G., Hassell, J. B., & Keeffe, J. E. (2007). The effectiveness of low-vision rehabilitation on participation in daily living and quality of life. Investigative Ophthalmology &Visual Science, 48(4), 1476. https://doi.org/10.1167/iovs.06-0610

Occupational therapy practice framework: Domain and process—Fourth edition. (2020). The American Journal of Occupational Therapy, 74(Supplement 2). https://doi.org/10.5014/ajot.2020.74s2001

U.S. Department of Health and Human Services. (2024). Low vision. National Eye Institute. https://www.nei.nih.gov/learn-about-eye-health/eye-conditions-and-diseases/low-vision#section-id-6335

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